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TRAUMA, MEMÓRIA COMUNICATIVA E GERAÇÃO: A HISTÓRIA DE UMA REFUGIADA (COLÔNIA DE ENTRE RIOS, GUARAPUAVA-PR)
Diego Luiz dos Santos
Diego Luiz dos Santos
TRAUMA, MEMÓRIA COMUNICATIVA E GERAÇÃO: A HISTÓRIA DE UMA REFUGIADA (COLÔNIA DE ENTRE RIOS, GUARAPUAVA-PR)
TRAUMA, COMMUNICATIVE MEMORY AND GENERATION: THE STORY OF A REFUGEE (COLÔNIA DE ENTRE RIOS, GUARAPUAVA-PR)
Caminhos da História, vol. 29, núm. 2, pp. 77-91, 2024
Universidade Estadual de Montes Claros

Dossiê

TRAUMA, MEMÓRIA COMUNICATIVA E GERAÇÃO: A HISTÓRIA DE UMA REFUGIADA (COLÔNIA DE ENTRE RIOS, GUARAPUAVA-PR)

TRAUMA, COMMUNICATIVE MEMORY AND GENERATION: THE STORY OF A REFUGEE (COLÔNIA DE ENTRE RIOS, GUARAPUAVA-PR)

 Diego Luiz dos Santos i santos.diegoluiz@gmail.com
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz , Brasil

Caminhos da História
Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil
ISSN: 1517-3771
ISSN-e: 2317-0875
Periodicidade: Semestral
vol. 29, núm. 2, 2024

Recepção: 31 Maio 2024

Aprovação: 30 Junho 2024


Este trabalho está sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

Resumo: O artigo investiga as narrativas de vida e de sobrevivência de imigrantes alemães conhecidos como Suábios do Danúbio, (Donauschwaben), oriundos da ex-Iugoslávia, Romênia e Hungria e que, que ao final da II Guerra Mundial fugiram ou foram expulsos de seus territórios. Parte destes, após estadia em campos de refugiados na Áustria, foi deslocada para o Brasil, município de Guarapuava, no início da década de 1950. Utilizando como fontes principais o manuscrito autobiográfico de uma sobrevivente imigrante e uma entrevista realizada com um de seus netos já nascido no Brasil, o trabalho apresenta uma análise de trajetórias de vida narradas por duas gerações de uma mesma família buscando identificar a influência do passado familiar nas gerações mais jovens. Com base nos pressupostos teóricos de Aleida e Jan Assmann e Harald Welzer sobre a “memória comunicativa”, o artigo reflete sobre os sentidos construídos a partir de tais narrativas sobre o passado traumático e os (novos) significados a ele são atribuídos.

Palavras-chave: Refugiados, passado traumático, memória comunicativa.

Abstract: The article explores the life and survival stories of German immigrants, known as Danube Swabians (Donauschwaben), who originated from former Yugoslavian, Romanian, and Hungarian territories. These individuals fled or were forcibly expelled at the conclusion of World War II. Many ended up in refugee camps in Austria before eventually resettling in Brazil, particularly in the municipality of Guarapuava in the early 1950s. Drawing primarily from the autobiographical manuscript of one immigrant survivor and an interview with one of her grandchildren born in Brazil, the study analyzes the life paths recounted across two generations of the same family. It aims to uncover how the family's past experiences have influenced younger generations. The article applies theoretical frameworks proposed by Aleida and Jan Assmann, as well as Harald Welzer, particularly focusing on "communicative memory". This approach considers the construction of meanings through these narratives regarding a traumatic historical past and the emergence of new interpretations thereof.

Keywords: Refugees, traumatic past, communicative memory.

Introdução

O artigo analisa trajetórias de vida narradas por duas gerações de uma mesma família buscando identificar a influência do passado familiar nas gerações mais jovens[1]. De modo mais específico, o trabalho se centra em narrativas de vida e de sobrevivência de imigrantes alemães conhecidos como Suábios do Danúbio, (Donauschwaben), oriundos da ex-Iugoslávia, Romênia e Hungria e que, ao final da II Guerra Mundial fugiram ou foram expulsos de seus territórios. Parte destes, após estadia em campos de refugiados na Áustria, foi deslocada para o Brasil, município de Guarapuava, no início da década de 1950.

Para tanto, o artigo utiliza como suas fontes principais, o manuscrito autobiográfico de Úrsula B[2]. e a transcrição da entrevista oral concedida por Aureliano B., seu neto que, diante da morte da avó, tornou-se o guardião do manuscrito em questão.

Ambas as fontes foram coletadas pelos professores envolvidos no projeto de pesquisa “Deslocamentos e (des)encontros: refugiados da Segunda Guerra Mundial e ‘brasileiros’ em Guarapuava – PR” que buscou adentrar nas histórias familiares, por meio da produção de narrativas orais, e comparar as entrevistas de história de vida com este discurso de memória coletiva que circula no espaço público. Para isso, entre as diversas atividades realizadas durante o processo da pesquisa, os professores produziram entrevistas de história de vida, com membros da geração imigrante e com pessoas das outras gerações, sendo algumas da mesma família.

As entrevistas foram baseadas no método proposto por Alexander Von Platto, na qual a entrevista se divide em três etapas. Na primeira, o entrevistado conta sua trajetória de vida, começando de onde quiser e arranjando a história do jeito que preferir. Mediante pedido, também são feitas perguntas, do contrário, o entrevistador permanece em silêncio. Isso permite ao entrevistado uma maior liberdade ao contar sua história, não sendo influenciado pelas perguntas do pesquisador. Na segunda fase são tiradas dúvidas e esclarecimentos que restaram na fase anterior. E por fim, são abordados os temas que, por um lado, foram pouco mencionados na história de vida, e, por outro lado, interessam de forma especial ao historiador. As etapas do método foram esclarecidas aos entrevistados como uma forma de evitar quaisquer inseguranças (PLATO apud FROTSCHER, 2013).

Um dos conceitos que direcionam este artigo é a ideia de Memória Comunicativa formulado por Jan Assmann (apud FROTSCHER, 2015), ao referir-se a uma espécie de memória de curta duração da sociedade, através da qual os indivíduos e grupos criam sua imagem do passado sempre a partir de um ponto fixo no presente. Harald Welzer (2010) desenvolve esse conceito observando como imagens e descrições dos livros, filmes ou conversas tornam-se base para as imagens que os sujeitos fazem de seu próprio passado. Sendo assim, ao narrar suas vivências, o sujeito acaba estruturando sua estória por meio de uma narrativa pré-existente. Neste sentido, ideias e imagens do passado são compostas no cotidiano a partir de diferentes fontes, como conversas na família, escola, cinema, etc. Para a historiadora Méri Frotscher, a noção de memória comunicativa aponta para “uma interdependência entre memória e sociedade, demonstrando que os significados atribuídos a informações não se constituem num processo meramente neuronal ou individual, mas através da comunicação” (FROTSCHER, 2015, p. 42).

Neste artigo, a noção de memória comunicativa permite pensar as narrativas produzidas pela primeira geração dos suábios do Danúbio que migraram para o Brasil e seu impacto nas novas gerações, permitindo uma reflexão sobre os sentidos construídos a partir de tais narrativas sobre o passado traumático e os (novos) significados a ele atribuídos.

A Colônia de Entre Rios e a construção de memória para os suábios do Danúbio

Suábios do Danúbio (Donauschwaben) é a autodenominação adotada por um grupo de descendentes alemães que colonizou as regiões do Império Austro-Húngaro no século XVIII até meados do século XIX. Na Segunda Guerra Mundial muitos dos Suábios serviram nas tropas alemãs, integrando a divisão da Waffen-SS Prinz Eugen, criada em 1942 para combater os guerrilheiros comunistas chefiados por Josep Broz Tito[3]. Como represália, em meados de 1944, o governo instaurado de Tito privou os Suábios de seus direitos civis na Iugoslávia. (STEIN, 2011, p. 51).

De acordo com o cientista político e jornalista Fritjof Meyer (2005), o grupo que permaneceu na região foi alvo de massacres, deportação, estupros, torturas seguidas de morte, etc. O autor afirma que entre o outono de 1944 e a primavera de 1945 mais de 9.500 suábios foram mortos. 8000 mulheres e 4000 homens foram deportados para campos de trabalho na URSS, dos quais um de cada seis morreu. Os demais 167.000 que permaneceram foram confinados em campos, onde muitos morreram de fome, frio e doenças. Parte deles conseguiu fugir para a Áustria onde permaneceu em campos de refugiados. Segundo o historiador Marcos Stein, entre 1951 e 1954, por intermédio de várias organizações humanitárias internacionais e em especial a Ajuda Suíça à Europa (Schweizer Europahilfe), um órgão ligado à Igreja Católica, cerca de 2.500 suábios, imigraram para o Brasil, fixando-se no município de Guarapuava, Paraná. Ali fundaram, sob a coordenação da Cooperativa Agrária, a Colônia Entre Rios que abrange cinco vilas: Vitória, Cachoeira, Jordãozinho, Samambaia e Socorro (STEIN, 2011, p. 25).

De acordo com o geógrafo Gerd Kohlhepp, a propriedade fundiária da colônia foi dividida com base no número de pessoas que podiam trabalhar nas respectivas famílias, dessa forma, “como resultado a extensão inicial das 323 empresas agropecuárias variava entre 19 e 60 hectares e a área cultivável perfazia em média aproximadamente 27 ha” (KOHLHEPP, 1991, p. 114). Kohlhepp afirma ainda que a divisão partiu de um ponto idêntico para todos, não levando em conta a formação do relevo e a qualidade do solo, causando conflitos entre os colonos. Como resultado, as empresas da colônia passaram por um momento de grande instabilidade em seus primeiros anos, gerando insegurança e fazendo com que muitos dos imigrantes deixassem a colônia, permitindo, posteriormente, uma rápida consolidação econômica dos remanescentes (KOHLHEPP, 1991, p. 114).

A partir da segunda metade da década de 60 verifica-se a vinda de muitos não-suábios para a colônia, os quais fornecem mão-de-obra para cooperativa e para as propriedades rurais dos colonos (STEIN, 2011). Diante da ausência de um plano diretor-fixo para os povoados e como um meio de evitar a formação de favelas, a Cooperativa ergueu uma Vila Operária que contava com escola, igreja e um centro social (KOHLHEPP, 1991, p. 137).

No mesmo período, com a colônia passando por um momento de grande desenvolvimento econômico, a cooperativa Agrária, principal instituição econômica de Entre Rios, passou a investir e apoiar projetos que visavam reforçar uma memória sobre a colônia os suábios, de modo a “’reviver e manter’ determinada identificação étnica do grupo: a de serem Suábios do Danúbio” (STEIN, 2008, p. 49).

Como resultado destes esforços, iniciou-se a publicação de um periódico direcionado aos moradores da colônia, o jornal de Entre Rios, além da publicação de dois livros sobre os suábios e a criação do Museu Histórico de Entre Rios (STEIN, 2008, p. 49).

Décadas mais tarde, parte destes esforços seriam retomados diante de um eventual desinteresse demonstrado pelos jovens da colônia em relação ao passado da colônia e a manutenção de aspectos culturais de seu povo. É o que observa o historiador Marcos Stein (2008) ao analisar a série intitulada “Um povo luta pelo seu futuro” (Ein Volk kampft Um Seine Zukunft), publicada em 1994[4] no jornal de Entre Rios. A série apresentava relatos extraídos de entrevistas produzidas nas décadas de 70 e 80 na colônia sobre a vida e a história de imigrantes suábios, moradores da colônia. Em análise à diversas narrativas apresentadas, Stein observa que muitos dos trechos selecionados não só contam a história daqueles sobreviventes, como também indicam uma breve lição que o leitor deve extrair deles. As escolhas feitas pelos editores do periódico, neste sentido, partiram das necessidades do presente deixando transparecer uma “luta em prol do futuro da identidade suábia” (STEIN, 2008, p. 57).

A transmissão de memórias sobre os acontecimentos vividos ainda na Europa e nos primeiros tempos na colônia, portanto, foram narradas e repassadas às novas gerações de suábios não apenas através das conversas no interior da família, mas também por meio de uma série de mecanismos e suportes na qual muitas histórias individuais e familiares alcançaram a esfera pública, figurando em livros, publicações periódicas locais e nas exposições do museu.

Segundo Frotscher et al (2014), tais ações desenvolvidas pela cooperativa visaram rememorar o passado traumático vivido pelas famílias com o objetivo de construir uma memória coletiva para o grupo e, assim, afirmar sua coesão grupal. Objetivo este que dependeria não apenas de ações no campo econômico e social, mas também da luta contra o esquecimento daquele passado. (FROTSCHER et al., 2014).

Nas páginas a seguir, analiso a narrativa autobiográfica de Úrsula (1920-2005), que morou na Vila Jordãozinho, no distrito de Entre Rios, município de Guarapuava - PR e que, em 1996, aos 76 anos de idade, escreveu suas memórias contando sua história de vida em um pequeno caderno. O manuscrito original se encontra em poder de seu neto Aureliano B., a quem oi entregue, segundo ele, pela própria avó, pouco antes de seu falecimento.

A irmã de Aureliano teve acesso, anos após a morte da avó, a uma das cópias digitalizadas e se encarregou de traduzi-la do dialeto schwäbisch (suábio) para o alemão. Foi ela quem cedeu uma dessas cópias ao grupo de pesquisa, que mais tarde foi traduzida do alemão para o português pela historiadora Méri Frotscher.

A narrativa autobiográfica intitulada “Minha trajetória de vida” (Mein Lebenslauf) possui 14 páginas digitadas. Nela, a autora conta sua trajetória desde sua infância até anos após a morte do esposo, já na colônia de Entre Rios.

Logo em seguida, analiso a entrevista de Aureliano B., neto de Úrsula, de modo a identificar em que medida sua narrativa de vida reproduz ou se afasta da narrativa familiar construída por sua avó. Dessa maneira, será possível compreender como as diferentes gerações narram a história de sua família e pensar as maneiras pelas quais o passado é repassado, ressignificado, reconstituído e modificado ao longo das gerações.

A história de uma sobrevivente: Úrsula B.

Úrsula B. é filha de descendentes dos suábios do Danúbio oriundos da antiga Iugoslávia. Em sua autobiografia, a escrevente conta o contexto em que seus pais se conheceram e no qual ela nasceu:

Era depois da Primeira Guerra Mundial. Muitos homens se deslocaram para a América à procura de trabalho. Assim também fez o meu pai. Depois de um ano ele voltou para a Iugoslávia e queria começar a trabalhar com agricultura. Mas ele não teve sorte. Então ele casou com uma viúva em razão da guerra que tinha duas filhas. Ele mesmo também era viúvo, mas não tinha filhos com sua primeira esposa. O pai foi novamente para a América e a mãe foi depois com os filhos. No ano de 1920, no dia 04 de julho, eu nasci, em Detroit (Memórias de Úrsula, p. 01).

Ainda criança, seus pais se separaram e uma de suas irmãs faleceu vítima de complicações da tuberculose, fazendo com que a mãe decidisse voltar a Iugoslávia, levando suas filhas consigo. Aos 8 anos de idade, Úrsula perdeu a mãe e foi morar com a irmã mais velha e o cunhado o qual, segundo afirma em suas memórias, a tratava muito mal. Aos 16 anos, casou-se com um filho de agricultores descendentes de suábios do Danúbio (a seu marido, uso o pseudônimo de José). O casal trabalhou como agricultores até que José teve de servir ao exército alemão na Segunda Guerra Mundial.

Durante este período, a Iugoslávia foi palco de inúmeras batalhas entre as forças do eixo e facções que compunham a resistência iugoslava, como os guerrilheiros partisans e os monarquistas Chetniks. Certa manhã, com a aproximação das tropas partisans de sua casa, Úrsula e sua família se viram forçados a deixar tudo para trás:

O Exército alemão veio e disse que nós deveríamos ir embora em três horas. José veio junto com o Exército e me ajudou a arrumar a bagagem. Mas o que nós deveríamos levar junto? Só o que coubesse na caixa! Numa mala pequena eu tinha as roupas de bebê, fraldas, estofo, o que era necessário para um bebê, pois eu esperava o meu quinto filho (Memórias de Úrsula, p. 06).

Após José voltar para a Guerra, Úrsula passou por um duro período de fuga rumo aos campos de refugiados austríacos, juntamente com seus filhos e sogros. O reencontro do casal se deu na Áustria cerca de quatro anos depois, após o fim da guerra. As dificuldades se seguiram por alguns anos até que, por volta de 1950 souberam da “Ajuda Suíça à Europa”, que oferecia a possibilidade de emigração para o Brasil. O casal rapidamente fez seu registro no programa e em 1951 chegou a colônia de Entre Rios. Ali viveram todo o resto de suas vidas. José faleceu em 1974 e Úrsula muitos anos depois, em 2005.

Parte destes acontecimentos foram narrados pela própria imigrante em seu manuscrito autobiográfico. Um texto que, apesar de ter sido escrito por uma pessoa vinda de uma família de agricultores e cujas diversas mudanças de país trouxeram obstáculos a seus estudos, apresenta em sua narrativa simples, um enredo coerente, com começo, meio e fim e citando altos e baixos. A estrutura é dividida em diferentes etapas: a infância e adolescência, até seu casamento; a fuga enquanto o esposo lutava na guerra, até o momento de seu retorno (a fase mais longa narrada na autobiografia); e a viagem e chegada ao Brasil, quando fundaram a colônia de Entre Rios, que representa uma espécie de conclusão.

Em seu ensaio sobre a memória comunicativa, Welzer (2010) reflete sobre a capacidade de narrativa que absorvemos dos livros, peças de teatro ou filmes aos quais temos acesso durante nossa vida:

Nós todos temos no processo de memory talk, prática comum da rememoração conversacional através da qual se aprende de todo livro lido e de todo filme visto que uma verdadeira história tem um começo, um meio e um fim, e que ela deve seguir determinados modelos básicos para ser comunicável (Welzer, 2010, p. 02).

Welzer observa também como as pessoas que viveram a guerra - assim como as gerações posteriores – tiveram muitas de suas memórias sobre os eventos testemunhados ofuscados ou influenciadas pelas imagens vistas por ela no pós-guerra. Neste caso, produções como filmes e livros acabam oferecendo uma estrutura narrativa àquele que conta sua história e “para se poder vivenciar uma história familiar consistente e cheia de sentidos, produtos midiáticos servem como material de estofagem para as lacunas nas narrativas, como luzes na neblina do passado narrado” (WELZER, 2010. p. 02).

Ainda que Úrsula não fosse uma escritora profissional e não tivesse qualquer conhecimento sobre teoria literária, as reflexões de Welzer nos ajudam a pensar a construção narrativa de Úrsula. Mantendo um tom dramático do início ao fim, sua história apresenta pouquíssimos momentos de paz e algumas das cenas, principalmente as mais traumáticas, são descritas com tamanha riqueza de detalhes, que se assemelham a cenas de um filme. Numa das cenas, ao narrar sua passagem pela Hungria durante a fuga, a escrevente fala sobre como foi separada de seus filhos numa precária viagem de trem, após adoecer em razão do frio e da fome:

Vieram duas enfermeiras, uma pegou a minha pequena mala com estofo para o bebê, roupas e fraldas, e a outra me ajudou a andar, pois eu não podia mais andar. Antes de eu me separar de meus filhos eu disse ao meu filho mais velho que olhasse por seus irmãos. Ele tinha 7 anos e chorou, pois ele mesmo ainda era tão pequeno. Na metade do caminho até o vagão das enfermeiras o trem de repente começou a andar. A enfermeira pulou no vagão e levou minha mala com ela, elas me deixaram sozinha no caminho. Eu só tinha um sobretudo e minha bolsa de mão comigo. Eu pensei “o que eu vou fazer agora?” (Memórias de Úrsula, p. 07).

Se toda história de vida, conforme afirma Welzer, é marcada por “algo de terrível e de bonito” que de alguma maneira “se valem de gêneros e de enredos os mais diversos possíveis para construir uma história que se torna a sua própria história” (WELZER, 2002, p. 11), é possível dizer que é a tragédia que dá o tom de quase toda a narrativa de Úrsula. Tragédia aqui entendida no sentido definido por Hayden White (2008) ao observar o enredo trágico de Alexis de Tocqueville, como um modelo narrativo sobre dramas não superados e vitórias não alcançadas ou mesmo de dramas que, após superados, resultaram em uma situação ainda pior que a anterior.

Em sua narrativa, Úrsula extrai o “elemento trágico” mesmo de momentos felizes, narrando certos acontecimentos felizes que, imediatamente, são substituídos por situações dramáticas. Num dos trechos, por exemplo, a escrevente narra a cena em que deu à luz à sua filha dentro de um trem, em plena fuga, porém, aquele foi apenas um breve momento de alegria antes de a refugiada adoecer devido ao frio:

E foi com o trem andando que a pequena veio ao mundo. Ela estava toda azul. A enfermeira a colocou na mão e quando o trem parou, ela mostrou o bebê ao cobrador. Ele estava bem contente, como se fosse o filho dele. Eu quase congelei de frio, pois eu não tinha nada, só me cobri com meu sobretudo. Mas eu estava molhada, embaixo por causa do parto e em cima por causa da chuva e da neve ?” (Memórias de Úrsula, p. 07).

Anos após a guerra, Úrsula e José finalmente se reencontram na Áustria: “uma filha de nossa vizinha na antiga pátria trouxe ele até nós. Foi uma alegria, finalmente ele estava em casa. Desde outubro de 1944 nós não tínhamos nos visto e tudo foi aquele dia, 21 de janeiro de 1949” (Memórias de Úrsula, p. 12). Um ano depois, em 1950, veio a decisão de deixar a Europa e partir para o Brasil:

Então ficamos sabendo por intermédio da Ajuda Suíça à Europa que se podia emigrar para o Brasil, que eles ofereceram terras. Então José logo se registrou, pois ele era agricultor de corpo e alma. Como nós dissemos que tínhamos de desbravar o mato até que tivéssemos terra para plantar, José disse se nós não poderíamos levar seus pais junto, pois eles poderiam cuidar das crianças enquanto nós trabalhássemos. Assim levamos os pais junto. Eles nos ajudaram muito. Nós emigramos para o desconhecido. (Memórias de Úrsula, p. 13)

A narrativa segue contando sobre as vivências da família no Brasil, participando da fundação da colônia e construindo toda uma nova vida no novo país. Ainda assim, a história permanece ressaltando altos e baixos, até o trecho que anuncia a morte de José, em 1974, em decorrência de uma doença resultante dos serviços prestados forçadamente quando era prisioneiro no front. Na ocasião, a narradora relembra um momento narrado anteriormente em sua autobiografia sobre o dia em que um médico alertara a José, quando este realizava trabalhos forçados como prisioneiro de guerra, que aquele tempo na prisão teria consequências em sua saúde. Ao afirmar que seu marido ficou doente, “como o médico havia previsto quando eram prisioneiros” (Memórias de Úrsula, p. 14), Úrsula parece constrói um sentido para aquele momento, de modo a demonstrar como a guerra continuou trazendo consequências em suas vidas, mesmo após tanto tempo.

No parágrafo seguinte, após narrar a morte do esposo, Úrsula conclui a autobiografia:

Assim eu fiquei sozinha. Meus sogros já haviam falecido, os filhos estavam todos casados. Meu marido, dois anos antes de sua morte, ainda tinha construído uma casa nova. Ali eu hoje ainda moro. Nossa fortuna foi gasta com a doença de José. Depois de minha morte a casa pertencerá a José, o filho mais novo. Agora estou velha e, com a ajuda de Deus, mantive tudo na melhor saúde. Hoje já estou com 76 anos e tenho 17 netos e 22 bisnetos. E todos estão na colônia de Entre Rios. Assim, eu agradeço a Deus por tudo (Memórias de Úrsula, p. 14).

Escrita em 1996, a narrativa se encerra sem detalhar os acontecimentos posteriores à morte de José, em 1974. A narradora praticamente deixa de lado os últimos 20 anos de sua vida, talvez por acreditar que os anos em que viveu sem o esposo sejam irrelevantes ao seu objetivo de contar sua história e da família que constituíram. Como afirmou Verena Alberti, a escrita autobiográfica representa a construção de uma síntese que envolve omissões, seleção de acontecimentos a serem relatados e outras operações conduzidas pelo autor na busca por uma significação. É essa busca que, segundo Alberti, “prevalece na estrutura do texto, os relatos ganhando sentido à medida que vão sendo narrados, acumulando-se uns aos outros, de modo que a significação se constrói no momento mesmo em que o autor escreve a autobiografia” (ALBERTI, 1991, p. 12).

Chama a atenção a maneira como a escrevente encerra uma história com tantas adversidades agradecendo “a Deus por tudo” (Memórias de Úrsula, p. 14). Isso porque, apesar de ressaltar tragédias em sua vida, sua narrativa não é uma história de tragédias, mas de uma família que foi capaz de suportá-las e vencê-las.

Em determinado momento de sua autobiografia, ao descrever um momento de grande desconforto em que sentia fome e frio dentro de um vagão de trem e com dificuldades em respirar em razão dos oficiais que “fumaram a noite inteira”, Úrsula afirmou: “Não se imagina o que uma pessoa pode suportar” (Memórias de Úrsula, p. 09). Afirmação que revela a mensagem de resiliência que a autora visa transmitir por meio de sua obra. No momento da escrita, Úrsula é matriarca de uma família que se constituiu na diáspora, numa colônia na qual há um discurso de superação em relação ao passado da guerra e da instalação no Brasil. Suas experiências justificariam a escrita de uma autobiografia, necessária para transmitir o ensinamento, principalmente a seus netos, a quem o documento foi entregue. Por meio de sua narrativa sobre o passado, ela assume um papel muito semelhante àquele chamado pela socióloga Myriam de Barros (1989) de “mensageira da memória”. Papel que, em geral, é exercido pelos avós que “ao reconstruírem suas histórias de vida, reconstroem também a história do modelo familiar, através de caminhos já marcados por lembranças suas e de seu grupo familiar” (BARROS, 1989. p. 34).

Aureliano B. e os reflexos do passado nas novas gerações

Além do manuscrito autobiográfico de Úrsula B., durante a realização da pesquisa, tive acesso à transcrição da entrevista concedida por Aureliano B., seu neto, aos agentes envolvidos no projeto “Deslocamentos e (Des)encontros”. A entrevista foi produzida no Laboratório de Etnias e Identificações da Unicentro em 13 de maio de 2013 pelo Prof. Marcos Stein, auxiliado pelo então discente da Unicentro e integrante do projeto, Renilson Beraldo e disponibilizada em suporte digital audiovisual. A presente análise, contudo, foi realizada a partir de sua transcrição, executada por Renilson Beraldo. Tenho em mente, é claro, que a transformação de objetos auditivos em visuais no processo da transcrição, certas sutilezas podem ser perdidas, especialmente pelo fato de o texto transcrito não reproduzir com exatidão a essência do que foi dito no momento da entrevista falada (Portelli, 1997, p. 27).

Na ocasião da entrevista, Aureliano foi informado sobre os objetivos da pesquisa e sobre o fato de o entrevistador conhecer a trajetória de sua avó graças à série “Um povo luta pelo seu futuro”, publicada décadas antes no Jornal de Entre Rios. À época da entrevista, em 2013, o entrevistado tinha 36 anos e era gerente comercial de uma empresa de implementos rodoviários em Guarapuava, fora da colônia. Apesar de ter nascido e crescido em Entre Rios, mantinha-se distante por falta de tempo (Aureliano B. 2013. Transcrição, p.01) e por conflitos entre sua família e a cooperativa.

Os métodos da entrevista implicavam que Aureliano contasse a história de sua vida, porém, talvez por saber das motivações dos pesquisadores, ele dedicou grande parte de seu tempo a falar sobre Úrsula, com quem afirma ter tido uma relação praticamente materna de “amor incondicional”. Cerca de 8 das 13 páginas transcritas falam sobre a história da avó. Ainda assim, o entrevistado falou sobre vários aspectos de sua vida dentro e fora da colônia, sua educação e sua trajetória profissional. Esclareço, contudo, que em razão dos objetivos desta análise, atenho-me principalmente a trechos da entrevista que se relacionam à influência da história da avó em sua vida e à sua identidade como descendente dos suábios do Danúbio.

Aureliano faz parte da terceira geração da história da colônia (que compõe os netos daqueles que imigraram para o Brasil). Uma geração que viveu experiências muito distintas das anteriores, tendo convivido muito mais com a sociedade brasileira e num momento em que a colônia já havia se solidificado, desfrutando do bem-estar conquistado no local após certo tempo. Mesmo assim, a história daqueles primeiros suábios que desembarcaram no Brasil continua a ressoar e a impactar na identidade dos mais jovens, como ressalta Aureliano ao falar sobre o impacto da história de sua avó em sua vida: “a questão de ter conhecido a minha avó, de ter conhecido as histórias dela, me fez uma pessoa que digamos assim dá valor à cultura e aos antepassados pelo que eles passaram, pelo que eles contaram pra gente que passaram” (Aureliano B. 2013. Transcrição, p. 01).

Para ele, o fato de a avó ter sido testemunha e sobrevivente da guerra, a tornava uma confiável fonte de conhecimentos sobre o conflito que, segundo ele, era um dos assuntos mais lembrados por ela:

Então às vezes você via alguma coisa lá na aula, você tinha pra quem perguntar: “como é que foi, como é que não foi”. E daí, ia perguntar pra ela, e daí começava a história. E essa história poderia se estender por um mês e não chegava em um fim, porque eu sempre queria saber mais e da forma que ela contava pra gente! (Aureliano B. Transcrição, páginas 13-14).

Nas escolas de Entre Rios, muitos dos alunos tiveram em sua grade curricular a disciplina de “Alemão Cultural” que, como apontou Albert Elfes em reflexão resgatada por Frotscher et al, se tornou “um importante mecanismo para constituir e disseminar um conhecimento, o que daria sentido a um passado coletivo e o articularia a uma determinada visão de futuro (...)” sobre a colônia (FROTSCHER et al, 2014, p. 06).

Ao falar sobre sua identificação como descendente dos suábios do Danúbio, Aureliano se apropria da identidade sobre o grupo construída e veiculada no discurso público:

(...) É um povo que a gente sabe, pelo tanto que eu sei da história, um povo que sempre foi muito trabalhador, aonde eles migraram fizeram, digamos, a diferença, então aqui no Brasil não foi diferente, então pra quem conhece Entre Rios hoje e vê a questão de tanto culturalmente quanto financeiramente é um povo que trabalhou bastante pra ter o que tem, dia e noite, e a questão de culturalmente isso aí passa de geração em geração, porque num dos escritos, tem que do pântano fizeram nascer a flor do Éden, então, do banhado.... Então, eu me orgulho de ser descendente... (Aureliano B., 2013. Transcrição, p. 3).

Nota-se que Aureliano B. refere-se à história dos imigrantes de Entre Rios como a história de um “povo” - expressão repetida por três vezes no pequeno fragmento acima citado - ressaltando as observações de Alessandro Portelli resgatadas por Stein de que “a memória individual, materializada na fala individual (...) só se torna memória coletiva quando é abstraída e separada da individual (...)” (STEIN, 2008. p. 56). Aureliano aqui reproduz grande parte do discurso de memória coletiva que circula no espaço público graças por meio das instituições culturais da colônia, como o jornal e o museu, traçando uma característica única e contínua entre as gerações de suábios do Danúbio como um povo que se une pelo trabalho e pela superação.

Características estas reforçadas também pela narrativa individual de sua avó, com quem Aureliano afirma ter uma forte ligação (Aureliano B., 2013. Transcrição, p. 04). Por diversas vezes na entrevista, Aureliano repetia o que pode ser considerado um mantra de sua avó sobre a capacidade humana em suportar as adversidades, como no trecho abaixo em que o entrevistado relaciona pequenos desalentos do dia a dia aos ensinamentos de Úrsula:

A minha avó sempre falava que, muitas vezes a gente reclamava: “ah porque está doendo aqui”, “tô com dor de cabeça”, “porque eu cortei o dedo, porque...” e ela sempre falava: “vocês não têm ideia do que é uma pessoa... que um ser humano é capaz de aguentar!” (Aureliano B. 2013. Transcrição, p. 02-03).

Logo em seguida, Aureliano menciona o trecho da autobiografia de sua avó que narra o dia em que deu luz à uma criança em meio à fuga, tendo de seguir viagem por dias sem sequer poder se lavar. Na autobiografia, Úrsula apresenta este momento de sua história como uma prova de que o ser humano é capaz de suportar situações que parecem ser impossíveis: “Nós ainda andamos 12 dias sem banhar a criança ou me limpar a mim própria. Não se pode nem imaginar que isso seria possível” (Memórias de Úrsula, p. 14). Décadas depois, em sua entrevista Aureliano se apropria dos mesmos ensinamentos:

Porque ela ficou, se eu não me engano, eu posso até estar falando alguma coisa que não esteja bem certinho em relação a números, mas se eu não me engano, ela ficou dez dias sem poder lavar a minha tia e ela se lavar. Então, você imagina o parto, sangue, ela falou que é uma questão que só numa necessidade dessa você consegue perceber o que o ser humano é capaz de aguentar (Aureliano B. 2013. Transcrição, p. 02-03).

Para o entrevistado, tais ensinamentos são portadoras de uma valiosa lição que deve ser repassada também às gerações vindouras. Em um dos trechos, ao enaltecer seu orgulho de ser descendente de um povo tão trabalhador, Aureliano afirma que, mesmo diante das barreiras impostas pelo idioma, seus filhos ouvirão a história de Úrsula e José: “(...) Eles vão escutar a história! Claro que eles vão conhecer a história dos bisavós deles” (Aureliano B., 2013. Transcrição, p. 04).

Aureliano assume, dessa forma, um compromisso com a transmissão daquela história e de seus ensinamentos dentro de seu núcleo familiar. No quarto capítulo de seu livro sobre a produção de sentidos identitários na colônia de Entre Rios, Stein (2011, p. 217) aponta o papel de certos agentes da colônia que, por meio das publicações da colônia e da construção do museu, atuam como guardiões da memória suábia, produzindo e divulgando discursos que promovem uma manutenção da “coesão do grupo em torno de uma memória comum”. Do mesmo modo, ainda que numa escala menor (REVEL, 1998), Aureliano atribui a si a mesma função. Não em relação aos suábios como um todo, mas em relação à sua família, cuja identidade remonta à história de persistência e resiliência de seus avós. Aureliano se apresenta, assim, como guardião da memória de sua família. Memória esta materializada no manuscrito produzido por Úrsula e que, segundo ele afirma, lhe fora confiado antes de sua morte:

Essa questão, dessa biografia da minha avó é... Eu peguei pra mim. Os tios já quiseram ela e eu falei: “não”. Eu fiz cópia e dei pra eles. A original está comigo porque, que nem eu falei, eu comentei que a minha ligação com a minha avó era coisa de outro mundo e, inclusive, antes de ela... Antes de ela falecer, ela pegou e pôs num pacote e falou: “Ó, está aqui. Pra você!” (Aureliano B. 2013. Transcrição, p. 10).

Como afirmou Myriam Barros com base nas reflexões de Maurice Halbwachs, “transmitir uma história, sobretudo a história familiar, é transmitir uma mensagem” (BARROS, 1989. p. 33). Aqui, falamos de uma mensagem sobre persistência e superação que se entrelaça com os sentidos identitários reforçados pela colônia e, no caso de Aureliano, pela autobiografia da avó. Como afirma o entrevistado, “(...) história desse tipo que a avó contava e que eu me orgulho, porque eu me ponho numa posição dela... deles, hoje. Não só dela, mas deles” (Aureliano B. 2013. Transcrição, p. 03).

A entrevista de Aureliano revela, portanto, a maneira como histórias sobre o passado podem ser apropriadas e ressignificadas no presente, legitimando condutas e construindo identidades para as novas gerações.

Considerações finais

Ao narrar sua vida por escrito, Úrsula não apenas buscou construir uma identidade familiar, mas também deixou a seu neto um tipo de manual para a vida. A escrevente dedica a maior parte de sua narrativa de vida ao período de guerra, detalhando as inúmeras dificuldades enfrentadas, porém sempre destacando como suportou e superou tais obstáculos. Ao ler a autobiografia de sua avó, Aureliano incorpora esta identidade e torna-se o guardião dessa memória familiar. A análise de sua entrevista, nos permitiu observar como ele, nascido em Entre Rios e neto de imigrantes suábios vê seus avós: como parte de um povo inspirador, um povo que, mesmo após tantos traumas e dificuldades, pôde superá-los e construir uma colônia próspera e bem-sucedida, por meio do trabalho.

O manuscrito autobiográfico de Úrsula nada mais é que um instrumento de “transmissão de bens simbólicos” produzido por esta avó que busca que “um pouco de si próprio sobreviva em seus netos (...)”, além de garantir a preservação de certa identidade familiar a partir deles (BARROS, 1989. p. 36). Quase 20 anos depois, Aureliano B., seu neto, utiliza este instrumento para reafirmar tal identidade ao mesmo tempo que reproduz parte do discurso de identidade étnica que circulam publicamente em Entre Rios. Dessa maneira, sentidos extraídos da história coletiva dos suábios do Danúbio popularizadas pela colônia, bem como de histórias narradas por Úrsula, acabam se mesclando à própria narrativa de vida de Aureliano.

Pensadas à luz do conceito de memória comunicativa, as trajetórias apresentadas neste artigo revelam um complexo jogo de ressignificações do passado projetadas pelos sujeitos a partir de suas próprias lentes de subjetividade. Sua análise nos permitiu refletir, portanto, sobre a dinâmica na qual ideias e imagens do passado veiculados a partir de diferentes fontes, como conversas na família, escola, cinema, etc. passam a compor a narrativa pessoal de Aureliano em seu cotidiano presente.

Referências bibliográficas

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AURELIANO B (nome fictício). Entrevista concedida a Marcos Nestor Stein para o projeto “Deslocamentos e (des)encontros: refugiados da Segunda Guerra Mundial e ‘brasileiros’ em Guarapuava – PR” realizada no Laboratório de Etnias e Identificações da Unicentro em Guarapuava-PR e transcrita por Renilson Beraldo. Marechal Cândido Rondon, 19 mai. 2013.

BARROS, Myriam. M. L. Memória e família. Estudos Históricos, v. 2, n. 3, p. 29-42, 1989.

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Notas

[1] Este artigo é um retorno a um trabalho anterior, produzido anos antes em minhas primeiras experiências na pesquisa, especificamente a partir do projeto de Iniciação Científica intitulado “Memórias sobre II Guerra Mundial na família: ‘memória comunicativa’ em entrevistas com três gerações em Entre Rios, Guarapuava – PR”, em vigor no período de agosto de 2013 a julho de 2014, sob orientação da professora Dra. Méri Frotscher. Realizado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, o projeto teve financiamento com bolsa pela Fundação Araucária e integrava um projeto maior denominado “Deslocamentos e (des)encontros: refugiados da Segunda Guerra Mundial e ‘brasileiros’ em Guarapuava – PR”, financiada pelo CNPq e pela Fundação Araucária/SETI. O projeto foi executado pelos professores Méri Frotscher (então professora da Unioeste, mas que hoje integra o quadro docente da Unicentro), Marcos Nestor Stein (Unioeste) e Beatriz Anselmo Olinto (Unicentro) e seu objetivo foi “levantar e coletar material documental e produzir fontes orais referentes ao distrito de Entre Rios (Guarapuava) no período de 1951 a 2011. O levantamento destas fontes permitiria a produção conhecimento sobre memória e geração dentro da colônia, atentando-se, entre tantas coisas, para “a problemática da reconstrução do passado e do seu repasse para as outras gerações”.
[2] Os nomes utilizados neste artigo são pseudônimos e foram inspirados na obra literária “Cem Anos de Solidão” do escritor colombiano Gabriel García Márquez.
[3] Sobre os crimes de guerra nacional-socialistas e os suábios do Danúbio da região de Banat (Romênia) vide: CASAGRANDE, T. Die Volksdeutschen SS-Division “Prinz Eugen”. Die Banater Schwaben und die National-Socialistischen Kriegsverbrechen. Frankfurt: Campus Verlag, 2003.
[4] A série foi constituída por entrevistas de refugiados suábios, produzidas nas décadas de 1980 e 1990 por José Lichtenberger e posteriormente pelo geógrafo Josef Gappamier e por funcionárias do museu da colônia (Stein, 2008).

Autor notes

i Diego Luiz dos Santos. Historiador. Pós-doutorando no departamento de Pesquisas em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, com bolsa pelo programa Inova Fiocruz. E-mail: santos.diegoluiz@gmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9965-253X.

Ligação alternative

Caminhos da História

Institución: Universidade Estadual de Montes Claros

Volumen: 29

Número: 2

Publicado: 2024

Recibido: 31 de mayo, 2024

Aceptado: 30 de junio, 2024

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