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A REPRESENTAÇÃO IMAGÉTICA DE LULA E COLLOR NO JORNAL VOZ DA UNIDADE DURANTE O SEGUNDO TURNO DA ELEIÇÃO DE 1989
LA REPRESENTACIÓN DE IMÁGENES DE LULA Y COLLOR EN EL DIARIO VOZ DA UNIDADE DURANTE LA SEGUNDA VUELTA DE LA ELECCIÓN DE 1989
THE VISUAL REPRESENTATION OF LULA AND COLLOR IN THE VOZ DA UNIDADE NEWSPAPER DURING THE SECOND ROUND OF THE 1989 ELECTION
Juliana Santos de Matos i julianamatos095@gmail.com
Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil
Recepção: 01 Setembro 2023
Aprovação: 23 Outubro 2023
Resumo: Neste artigo analisei cinco edições do periódico Voz da Unidade, do Partido Comunista Brasileiro, publicadas entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial brasileira de 1989. Através desse corpus compreendi como o jornal construiu as imagens dos dois candidatos à presidência, Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Levando em consideração que o PCB passou a apoiar a candidatura de Lula no segundo turno da eleição, levantei as diferenças entre a criação de uma imagem positiva, para esse candidato, e de uma imagem negativa de Collor. A fim de analisar o contexto de produção das fontes, realizo também um breve debate acerca do fim do governo Sarney. Para a realização desta pesquisa utilizo o pensamento de autores que trabalham fontes imagéticas, tanto a fotografia quanto o desenho; portanto, aplico o arcabouço teórico-metodológico presente nas obras de Lorenzo Vilches assim como nas produções de Rodrigo Tavares e Boris Kossoy. A partir do que foi analisado, concluo que a Voz da Unidade procurou aproximar a imagem de Lula dos ideais do próprio partido, enquanto Collor foi representado apenas a partir de um caráter cômico, sendo ironizado enquanto político pelo periódico.
Palavras-chave: Voz da Unidade, Eleição, Lula, Collor, Partido Comunista Brasileiro.
Resumen: En este artículo analicé cinco ediciones del periódicoVoz da Unidade, del Partido Comunista Brasileño, publicadas entre la primera y segunda vuelta de las elecciones presidenciales brasileñas de 1989. A través de este corpus entendí cómo el periódico construyó las imágenes de los dos candidatos presidenciales, Fernando Collor de Mello y Luiz Inácio Lula da Silva. Teniendo en cuenta que el PCB pasó a apoyar la candidatura de Lula en la segunda vuelta de las elecciones, planteé las diferencias entre la creación de una imagen positiva para este candidato y una imagen negativa para Collor. Para analizar el contexto de producción de las fuentes, realizo también un breve debate sobre el fin del gobierno Sarney. Para realizar esta investigación utilizo el pensamiento de autores que trabajan sobre fuentes de imagen, tanto la fotografía como el dibujo; por ello, aplico el marco teórico-metodológico presente en las obras de Lorenzo Vilches así como en las producciones de Rodrigo Tavares y Boris Kossoy. De lo analizado, concluyo que Voz da Unidade buscó acercar la imagen de Lula a los ideales del propio partido, mientras que Collor fue representado sólo de manera cómica, siendo objeto de burla como político por parte del periódico.
Palabras clave: Voz da Unidade, Elección, Lula, Collor, Partido Comunista Brasileño.
Abstract: In this article I analyzed five editions of the Brazilian Communist Party newspaper, published between the first and second rounds of the 1989 Brazilian presidential election. Through this corpus I understood how the newspaper constructed the images of the two presidential candidates, Fernando Collor de Mello and Luiz Inácio Lula da Silva. Taking into account that the PCB started to support Lula's candidacy in the second round of the election, I raised the differences between the creation of a positive image for this candidate and a negative image for Collor. In order to analyze the context of production of the sources, I also carry out a brief debate about the end of the Sarney government. To carry out this research I use the thoughts of authors who work on image sources, both photography and drawing; therefore, I apply the theoretical-methodological framework present in the works of Lorenzo Vilches as well as in the productions of Rodrigo Tavares and Boris Kossoy. From what was analyzed, I conclude that Voz da Unidade sought to bring Lula's image closer to the ideals of the party itself, while Collor was represented only in a comical capacity, being mocked as a politician by the periodical.
Keywords: Voz da Unidade, Election, Lula, Collor, Brazilian Communist Party.
Introdução
No presente trabalho realizo uma análise das representações imagéticas — tanto reproduções fotográficas quanto desenhos — dos candidatos à presidência da República no segundo turno da eleição brasileira do ano de 1989, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello. Para isso, opto pela utilização do periódico Voz da Unidade enquanto fonte histórica. A Voz da Unidade foi o jornal oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB) entre os anos de 1980 e 1991 e, embora tenha apoiado Roberto Freire como candidato ao cargo de presidente naquele ano, após a sua derrota no primeiro turno da eleição, a publicação passou a fazer campanha para Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT). A partir disso, investigo neste artigo quais são as estratégias utilizadas pelo jornal para criar uma imagem positiva de Lula e negativa de Collor. Em 1989 o jornal lançou o caderno Voz da Unidade em Campanha durante o primeiro turno e Voz da Unidade Segundo Turno no segundo turno da eleição, o que demonstrou que o evento em questão foi assunto constante nas páginas do periódico naquele ano.
Anteriormente à Voz, houve a publicação de diversos impressos pecebistas, estratégia de propaganda que o partido sempre valorizou, considerando-os ferramentas eficazes de educação ideológica. No caso específico da fonte, pontuo a sua importância enquanto um instrumento para a investigação de um período bastante conturbado da trajetória do PCB, sendo que em 1980, quando foi lançada a Voz, o partido encontrava-se ainda na ilegalidade e engajado na luta pela democracia. Mesmo após 1985, com o fim do regime militar e a eleição indireta de Tancredo Neves, o “Partidão” encarou outros problemas, como seu baixo sucesso em eleições e conflitos ideológicos internos.
Esse foi o período em que o mundo assistiu à derrocada do bloco socialista. Principalmente na Europa, ideias reformistas tomaram conta do pensamento socialista clássico. Essas mudanças atingiram também o PCB. O partido, que representava a esquerda histórica brasileira, recebeu a influência das ideias reformistas do chamado eurocomunismo. Esse processo criou dissidências de pensamento entre a ala conservadora do partido e a ala reformista, que se inspirou nessas novas ideias provenientes dos PCs francês, espanhol e, principalmente, italiano (SOUZA, 2014, p. 95). Antes mesmo do período de transição, a disputa ideológica entre essas duas correntes de pensamento já balançava o PCB; no entanto, no fim da década de 1980 o processo de ruptura entre as duas alas se fortaleceu. Isso acarretaria no “fim” do partido em 1992, algo que também se refletiu na publicação Voz da Unidade, que foi extinta em 1991 tendo sido transformada no jornal Partido Novo em sua última edição.
A eleição presidencial de 1989 foi um evento bastante esperado pela população brasileira, tendo em vista que a última vez em que se pôde votar diretamente para esse cargo foi em 1960. Durante a ditadura civil-militar, os presidentes foram escolhidos de maneira indireta e diversos outros direitos políticos da população brasileira foram cerceados ou simplesmente tolidos. Após a redemocratização, e a morte de Tancredo Neves, José Sarney tentou utilizar a antiga legislação para permanecer na presidência por seis anos. No entanto, a eleição ocorreu, de fato, em 1989. Tal evento foi chamado de “eleição solteira”, pois seria somente para o cargo de presidente, sem a eleição de outros cargos, como ocorre atualmente (FREIRE; CARVALHO, 2018, p. 120-124).
Foram 22 candidatos concorrendo no primeiro turno da eleição. Neste primeiro momento não ocorreram coligações e o perfil dos políticos que disputavam a corrida presidencial era bastante diverso. Lívia Abreu, que se candidatou pelo Partido Nacionalista (PN) foi a primeira mulher a concorrer à presidência no país (FREIRE; CARVALHO, 2018, p. 125).
No primeiro turno da eleição, o PCB teve como candidato Roberto Freire, político pernambucano que tinha a sua imagem amplamente divulgada pela Voz da Unidade anos antes da disputa. Freire, assim como Giocondo Dias, fazia parte da ala reformista do partido que ganhava forças desde a Declaração de março de 1958 e do V Congresso do Partido, do ano de 1960 (SOUZA, 2014, p. 20). O candidato a presidente, já havia disputado a prefeitura do Recife e era deputado federal por Pernambuco, de maneira que o jornal, em 1989, havia consolidado uma forte representação de Freire como um socialista e democrata que estava completamente apto para assumir a presidência do país. Nesse sentido, no primeiro turno, o jornal opunha Freire à figura de Lula, estratégia modificada drasticamente a partir do segundo turno, após Freire ter somente 1,06% dos votos, de acordo com os dados da Voz. Dessa forma, enquanto o rosto do político pecebista ocupava quase por inteiro a primeira página da edição nº 471 do jornal, que precedia a votação do primeiro turno, na edição nº 475 foi o rosto de Lula que passou a preencher quase toda a capa da Voz da Unidade.
Foram eleitos para o segundo turno dois candidatos que representavam classes sociais bastante distintas. Fernando Collor de Mello, pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), utilizou o discurso da anticorrupção e apresentou-se ao eleitorado como um novo político. Collor, no entanto, era proveniente de uma família que já atuava no ramo político e, ele mesmo, foi prefeito de Maceió, deputado federal e governador de Alagoas. Ele foi o candidato apoiado pela grande mídia brasileira, visto como aquele que seria capaz de colocar um freio na esquerda e implantar as mudanças econômicas neoliberais que interessavam à elite nacional burguesa. Por outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, era o candidato proveniente do sindicalismo e da luta pelos direitos da classe trabalhadora, grupo que, durante a então recente Assembleia Constituinte, buscou colocar suas pautas em evidência, situação que preocupava os setores conservadores brasileiros.
Fundado na década de 1980, o PT surgiu como uma nova força de esquerda que passou a aglutinar a massa de trabalhadores brasileiros, ameaçando o poder do PCB, que neste momento perdera sua força tanto pela forte repressão da ditadura civil-militar quanto pelos seus erros táticos, dentre os quais estava justamente a falta de diálogo com a população trabalhadora em geral.
Conforme expõe Martinez (2007, p. 242-245), até a virada para a década de 1990, o PT ainda conciliava o confronto direto, especialmente dos trabalhadores contra as instituições à sua inserção no Estado através das eleições. O partido estava inserido na luta contra a ditadura civil-militar e a sua política econômica, que a partir da década de 1970 gerou um cenário de crise no Brasil, que aumentou o desemprego e manteve baixos salários.
O Partido dos Trabalhadores surgiu da necessidade que muitos sindicalistas entendiam existir de organização política como meio de transformação e de desenvolvimento das relações sociais no país. A experiência dos embates sindicais e das greves constituiu um padrão de educação política para a crítica e a negação da realidade histórica brasileira naquele momento (MARTINEZ, 2007, p. 245).
Embora o PCB tenha apoiado Lula no segundo turno das eleições, por vezes, seu jornal apresentou fortes críticas aos posicionamentos políticos do PT, principalmente no momento da eleição indireta de Tancredo e da posse de Sarney. Enquanto o “Partidão” buscava apoiar quase incondicionalmente o novo presidente do Brasil, o PT ainda acreditava que deveriam ser convocadas eleições diretas.
No fim do mandato de José Sarney, a situação econômica do país era bastante problemática. Com o fracasso dos Planos Cruzado I e II, bem como de seus outros planos econômicos, e a inflação descontrolada, a população estava insatisfeita com o presidente, pois havia um sentimento geral de que o povo brasileiro fora ludibriado (FERREIRA, 2018, p. 49). Além disso, seu governo representou, em certos aspectos, a continuidade do poder militar, uma vez que ele havia integrado a Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do recente regime ditatorial, e estava sob o que podemos considerar uma tutela militar (D’ARAÚJO, 2012, p. 586).
Se nas eleições gerais de 1986 o inicial sucesso do Plano Cruzado trouxe bons resultados para políticos ligados à Sarney, em 1989 a situação era totalmente diversa. Collor soube aproveitar esse contexto de maneira favorável à sua campanha. O candidato da classe burguesa foi eleito no segundo turno da eleição presidencial. Esse evento, de acordo com Maciel (2008, p. 18), marcou a vitória da autocracia burguesa na Nova República, ou seja, foi consolidada no poder institucional, após a redemocratização, a hegemonia da elite capitalista. De fato, como o autor explica, nesse período, apesar dos diversos avanços feitos pelas esquerdas brasileiras, houve uma maior institucionalização desses grupos, de forma que foi facilitado o seu controle pelos setores conservadores da sociedade. O próprio caminho reformista tomado pelo PCB estava de acordo com esse movimento. Ao mesmo tempo, crescia o PT, que em 1988, quando ocorreram as eleições municipais no Brasil, conseguiu eleger 38 prefeitos, e que, no ano seguinte, diante da eleição presidencial, afirmava que iria constituir um governo democrático e popular (MARTINEZ, 2007, p. 254-255).
Para o desenvolvimento desta análise, uso o arcabouço teórico-metodológico que engloba autores que pesquisam fotografias e desenhos. Pensando na importância da fonte fotográfica para o campo da História, ressalto a contribuição teórica de Boris Kossoy para o trabalho do pesquisador, uma vez que reforça o argumento de que fotografias são construções e não simples espelhos da realidade.
As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na imagem fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação de ideias e consequente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica possibilitam a multiplicação massiva de imagens através dos meios de informação e divulgação (KOSSOY, 2009, p. 20).
Para o autor, a fotografia é o produto de elementos físicos, como a tecnologia disponível no período em que é produzida, e de elementos subjetivos, como ideologia e moral. Por sua vez, sobre o fotojornalismo, de forma mais específica, utilizo conceitos apresentados no livro de Lorenzo Vilches (1997). Em sua obra Teoría de la imagen periodística, o autor pontua os campos de linguagem social da fotografia. O uso de figuras retóricas — ou maneiras de convencimento — nas imagens de imprensa estão dentro dos seguintes terrenos: objeto físico, sintaxe, semântica e referencial ou o contexto externo ao objeto fotografado. Em cada um desses aspectos a fotografia pode ser manipulada para atingir determinado objetivo. Voltarei a esse tópico ao analisar as fotografias presentes na Voz da Unidade.
Os desenhos — outra forma de linguagem trabalhada neste artigo — reproduzidos em periódicos são uma forma de comunicação que faz parte do imaginário brasileiro desde os primórdios da imprensa no Brasil. De acordo com Martins e Luca (2006, p. 44-45), as ilustrações em jornais foram essenciais para a sua difusão entre a grande população analfabeta brasileira no período da Primeira República, formando, dessa maneira, um mercado de especialistas gráficos.
Ilustradores talentosos ganharam espaço e se converteram em profissionais requisitados. Inicialmente, por meio da caricatura, uma tradição de nossa imprensa, que reproduzia os desmandos da oligarquia vitoriosa pelo humor e pelo chiste, criando personagens-tipo de grupos, partidos e classes, porta-vozes do novo leitor cidadão (MARTINS; LUCA, 2006, p. 45).
O PCB, desde o início da sua trajetória na década de 1920, também adotou extensivamente o uso de desenhos com a finalidade de propagar mensagens políticas através de seus impressos, especialmente para o grande número de pessoas analfabetas que faziam parte da população brasileira. Na Voz da Unidade, há uma continuidade dessa estratégia. Como veremos em seguida, no segundo turno da eleição, os candidatos foram desenhados enquanto jogadores de futebol, por exemplo. Ou seja, há uso de uma linguagem que dialoga culturalmente com o público leitor.
Tenho como referencial de estudo dos desenhos na mídia pecebista a obra de Tavares. Segundo o autor, a iconografia presente nos periódicos pecebistas:
Serviu para seduzir, entreter, informar e educar a população, contribuindo para a propaganda tanto quanto a palavra escrita. Assim como o discurso comunista se transformou ao longo do tempo, as imagens difundidas pela mídia impressa também se alteraram ao longo das décadas — e essas mudanças podem dizer tanto sobre o partido quanto as mudanças presentes nos textos (TAVARES, 2017, p. 32).
Assim, fica evidenciada a importância que as imagens — ou aquilo que o autor chama de iconografia comunista —, em conjunto com textos escritos, têm para a criação de uma linguagem jornalística própria da Voz, que assim como outros periódicos pecebistas, tem a construção de personagens como algo muito importante. Através da análise que realizo a seguir, compreendo a ideologia, ou ideologias materializadas no periódico.
Pensando tanto nos desenhos quanto nas fotografias, opto por empregar uma metodologia baseada na análise daquilo que Vilches (1997, p. 84) chama de campo semântico. Ou seja, analiso o aspecto simbólico e a produção de sentido presentes no corpus, sem adentrar em questões referentes à produção técnica do objeto foto. Trabalho com a ideia da criação de uma identidade social a partir das imagens, bem como com a noção apontada por Vilches (1997, p. 80) de que a fotografia cria uma narrativa e que, portanto, possui personagens. No caso, amplio essa ideia também para os desenhos presentes no jornal.
Enfim, deixo explícito uma interpretação dos sentidos possíveis produzidos pelo discurso da Voz da Unidade, uma vez que é impossível alcançar o intuito original e exato do órgão ao publicar essas edições. Para isso, me valho do pensamento de Charaudeau (2019, p. 27-28):
Toda análise de texto nada mais é do que a análise dos “possíveis interpretativos”. No que tange à comunicação midiática, isso significa que qualquer artigo de jornal, qualquer declaração num telejornal ou num noticiário radiofônico, está carregada de efeitos possíveis, dos quais apenas uma parte — e nem sempre a mesma — corresponderá às intenções mais ou menos conscientes dos atores do organismo de informação, e uma outra — não necessariamente a mesma — corresponderá ao sentido construído por tal ao qual receptor.
Análise das imagens
O corpus escolhido para a realização da análise engloba cinco edições da Voz da Unidade, da edição nº 472 a nº 476. Elas compreendem o período entre o anúncio do resultado do primeiro turno da eleição e da vitória de Fernando Collor de Mello no segundo turno. Trabalharei com a primeira página dessas cinco publicações e com desenhos que aparecem na segunda página do jornal junto ao editorial e, no caso específico das edições nº 473, nº 474 e nº 475, também analisarei imagens do suplemento Voz da Unidade Segundo Turno. Tal escolha se dá pela importância da análise das capas da Voz, nas quais encontrei manchetes escritas e/ou fotográficas. Dentre estas edições, também selecionei algumas fotografias que foram reproduzidas em outras seções do jornal. A Voz da Unidade veiculou, nesse momento, quase somente fotografias de Lula. Dentre as cinco edições aqui analisadas, aparece apenas uma fotografia de Fernando Collor, tática importante para não gerar qualquer tipo de propaganda para o adversário.
Inicio a análise pela primeira página da edição nº 472 do periódico, publicada no dia 23 de novembro de 1989 (Figura 1). Nela é evidente o grande foco dado à questão da eleição presidencial, que, entre fotografias e textos, ocupa todo espaço da página, com exceção de apenas outra notícia referente às eleições no Uruguai.
O jornal optou por não publicar uma manchete com referência direta à derrota de Freire no primeiro turno. No entanto, acima da pequena legenda “Roberto Freire analisa os resultados eleitorais e as perspectivas políticas do Brasil”, há a reprodução de um retrato do político, no qual, seu rosto está tenso e bastante sério. Algo que, juntamente com a legenda — que tem o poder de acentuar o processo de conotação da fotografia —, indica a preocupação do PCB frente ao seu fracasso eleitoral, bem como com relação à qual rumo o segundo turno da eleição poderia vir a tomar.
O retrato de Lula também aparece em destaque, recortado de seu fundo original, de forma que apenas a sua figura se sobressai frente à página cinza do jornal. Essa operação é chamada de substituição por Vilches (1997, p. 125), uma vez que o fundo original da foto é subtraído e um novo fundo é adicionado. Essa manipulação ocorre no campo da estrutura da fotografia. Ao colocar tal figura na capa do jornal, há a intenção de dar ênfase somente para a imagem de Lula, retirando-o de qualquer contexto presente na fotografia original. Dessa maneira, o leitor é levado a prestar atenção somente no candidato apoiado.
Diferentemente de Freire, Lula aparece com uma postura confiante. Seu olhar está direcionado para cima e sua mão apoiada sobre o peito. Tanto a imagem de Freire quanto a de Lula não têm autoria indicada.
Juntamente à sua imagem, há uma faixa vermelha salientando o texto que anuncia o apoio do PCB ao candidato do PT. A cor vermelha não somente é importante na linguagem construída pelo periódico como também é única utilizada em suas páginas. Logo na segunda edição do jornal em 1980, a Voz apresenta seu logotipo em vermelho, bem como alguns títulos de matérias. No ano seguinte, na edição nº 46, a cor vermelha passou a integrar também ilustrações e textos, além de títulos. Tal estratégia acompanhou a estética do jornal até o seu fim.
Não tenho como saber se os dois políticos, nessas duas diferentes imagens, tinham consciência de que estavam sendo fotografados; portanto, há a possibilidade de que as suas feições tenham sido registradas de acordo com a naturalidade do evento que os fotógrafos conseguiram captar.
Saliento que esta capa, assim como as imagens seguintes, faz parte de uma narrativa elaborada pelo veículo de notícias do partido. Essa página, em especial, configura uma espécie de ponto de virada, uma vez que aquilo que a Voz estava afirmando nas edições anteriores nem mesmo se aproximou de ocorrer, ou seja, seu candidato não teve a menor chance de vencer a eleição. Assim, ao quebrar a expectativa do leitor e eleitor, ao mesmo tempo, a mensagem passada é de motivação. O texto “Agora é Lula” e a imagem confiante daquele que passou a ser apoiado, mobilizou o sentimento daqueles que compraram o jornal.
Na segunda página do jornal, foi publicado o editorial intitulado “A resolução dos comunistas”. Nele foi informada a decisão de apoiar Lula no segundo turno da eleição. Destaco o seguinte trecho: “Havendo recebido no primeiro turno uma votação que não foi majoritária, ele precisa de apoios para a vitória no turno decisivo e que lhe dêem condições de governabilidade” (VOZ DA UNIDADE, 23 de novembro de 1989, p. 2). Ao lado do texto do editorial, aparece o desenho que representa tanto Collor quanto Lula enquanto jogadores de futebol (Figura 2). O desenho, assim como todos os outros que apresentam os candidatos como atletas, é de autoria do desenhista Cláudio, e outras ilustrações, com o mesmo estilo, aparecem ainda no primeiro turno com os candidatos representados dessa mesma maneira. Para além do caráter acessível dessa forma de linguagem, a associação dos políticos com o futebol parece ser uma forma de dialogar mais intensamente com um público amplo, tendo em vista a popularidade desse esporte.
O desenho está ligado à preocupação exposta no editorial com relação aos números obtidos por Lula no primeiro turno, uma vez que Collor aparece em tamanho muito maior na ilustração. Por outro lado, enquanto ele está parado, olhando para trás, Lula parece dar um salto bastante largo em relação ao seu tamanho, preocupando seu oponente que demonstra expressão de desagrado em seu rosto. As charges publicadas no jornal durante o segundo turno da eleição, como veremos, narram um percurso em que Lula aos poucos supera seu adversário com o auxílio daqueles que apoiaram a sua candidatura. Assim, como os elementos visuais presentes na capa do jornal, o apelo ao uso do futebol como metáfora para a disputa política apela para o uso das emoções do receptor. É como se o jornal dissesse que, da mesma maneira que o “time do coração” do leitor pode reverter um resultado negativo em campo, aos 45 minutos do segundo tempo, o candidato do PT, entrando em substituição no lugar de Freire, poderia reverter a vitória da oposição.
De acordo com Charaudeau (2019, p. 60-92), o discurso propagandista em um meio de comunicação tem como intuito seduzir o receptor; dessa forma, o conteúdo não é pensado da mesma maneira que um texto puramente informativo. Portanto, mais do que um “fazer saber”, o veículo de informação estará preocupado com o “fazer sentir” de seu leitor.
A edição nº 473 foi publicada no dia 30 de novembro de 1989. Sua capa trouxe outras notícias além da temática da eleição presidencial. No entanto, é possível notar o grande destaque dado para o assunto, especialmente através da manchete “Lutar e vencer”, bem como da reprodução, em tamanho consideravelmente grande, da imagem de Lula, também sem autoria indicada (Figura 3). A fotografia do político apresenta sua postura ativa, discursando, segurando o microfone e gesticulando, com uma expressão forte no rosto e olhos bastante abertos. No texto que está ao lado direito da fotografia é expressada a preocupação com relação a Fernando Collor, questão que segue sendo debatida na próxima página, no editorial do jornal.
Essa ilustração (Figura 4) está ao lado do título “Lula X Collor”, texto no qual o jornal reforça seu apoio a Lula e explica que Fernando Collor é o representante da “modernização conservadora”. No desenho, Lula ocupa a posição de goleiro, ou seja, aquele que deve defender seu time de futebol contra o ataque do adversário. Essa imagem faz alusão ao fato de Lula ser o último a poder conter a vitória da direita. Em sua frente, fazendo uma barreira, estão representados Roberto Freire, do PCB, Mário Covas, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), e Leonel Brizola, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), políticos que passaram a apoiar o PT no segundo turno da eleição de 1989. Enquanto Lula e Roberto Freire possuem semblantes sérios e combativos, Covas e Brizola estão representados com expressões neutras. Neste sentido, há uma aproximação do político pecebista com relação à Lula. Tal forma de representação aparece em outra imagem nessa mesma edição (Figura 5).
Pensando na disposição espacial dos elementos presentes neste desenho, vemos que o espaço do gol está completamente preenchido, pois na perspectiva do espectador da cena, os três políticos que apoiam Lula cobrem o lado direito do gol, enquanto o candidato, do lado esquerdo do gol, protege o restante do espaço. Dessa maneira, fica implícita a mensagem de que juntos, esses homens poderiam defender completamente o país do perigo de Fernando Collor, que nesse caso nem aparece. Ainda a respeito da perspectiva do desenho, levando em consideração que Lula está posicionado mais ao fundo da imagem do que os seus colegas de time e que, no entanto, apresenta o mesmo tamanho que eles, se o posicionássemos no mesmo plano que Freire, Covas e Brizola, ele apresentaria uma estatura muito maior que eles. Possivelmente Cláudio usou essa estratégia de “erro” na perspectiva do desenho a fim de não diminuir a figura do candidato apoiado. Adiante será possível perceber como a questão do tamanho dos personagens nessas charges é importante para a narrativa criada.
Essa composição de imagens[1] — que podemos considerar uma adjunção dentro do âmbito da sintaxe visual, de acordo com a obra de Vilches (1997, p. 131-133) — corrobora para a compreensão do leitor a respeito da importância de votar em Lula, uma vez que ele e o presidente do PT na época, Luiz Gushiken, são colocados lado a lado de membros do PCB, Roberto Freire e Salomão Malina, presidente do partido entre 1987 e 1991. Esse conjunto de fotografias encontra-se na terceira página do jornal, junto à matéria “PCB e PT formalizam aliança” que informa sobre o evento no qual esses políticos encontraram-se para oficializar o apoio.
Tal estratégia não foi nova para a imprensa pecebista. De acordo com Tavares (2017, p. 84), em 1947, quando o PCB decidiu apoiar Ademar de Barros na eleição do governo de São Paulo, logo reproduziu a sua imagem ao lado da de Luís Carlos Prestes em seu periódico Hoje. Esse exemplo demonstra como essas alianças foram firmadas em seus impressos.
No suplemento Voz da Unidade Segundo Turno, no centro da primeira página, há a reprodução da imagem de Lula discursando para uma multidão de pessoas. Como sempre, ele aparece com uma expressão assertiva no rosto. A fotografia enfatiza seu papel enquanto representante do povo (Figura 6). Através da escolha da fotógrafa, o público que assiste/escuta o político ocupa a maior parte da fotografia, ou seja, a população representa o verdadeiro protagonista na eleição presidencial. Lula, que também está em destaque, por estar em primeiro plano na imagem, é o instrumento que deve ser usado por essa população para o fortalecimento da democracia e para o combate da direita brasileira. Assim, dentro da narrativa construída pela fotografia, tanto Lula quanto a massa de pessoas são personagens destacados pelo contraste de uma luminosidade que os atinge, diferenciando-os de um fundo escuro.
Na primeira página da edição nº 474, do dia 7 de dezembro de 1989, continua em pauta a campanha a favor de Lula. Ocupando pelo menos a metade da página, acompanhada de uma manchete grande em vermelho, a foto do candidato — também recortada de seu fundo original —, desta vez engravatado, está ao lado de um texto que explica a sua postura frente à necessidade de realizar alianças para implementar um governo possível (Figura 7). Há a construção da imagem de um político mais moderado, inserido na luta institucionalizada. A escolha de utilizar essa fotografia, na qual Lula está com o semblante calmo e vestimentas que remetem à política tradicional, também faz parte dessa construção de sentido. O personagem posa para foto, de forma que possui a possibilidade de escolher a melhor forma de constituição da sua própria imagem, em um processo que Barthes (1984, p. 22) aponta como uma auto fabricação do indivíduo em outro corpo. Ainda sobre isso ressaltamos que
Inserida numa situação ideal, a pessoa exprime-se por intermédio de dois códigos historicamente determinados — o "fisionômico", que implica a transformação do corpo pelo uso de diferentes artifícios e o “vestinômico", alicerçado na moda, que contesta o caráter biológico do sujeito, ao negar sua nudez primordial (FABRIS, 2004, p. 57).
É importante frisar que essa postura estava de acordo com a estratégia política adotada pelo PCB desde a sua Declaração de março de 1958 e que tem continuidade no período da transição, quando o Partido buscava cada vez mais uma inserção institucional na luta pela democracia. Ao citar a fala de Lula, a Voz da Unidade mais uma vez o aproxima dos ideais defendidos pelo partido, tendo em vista a valorização de negociações e formações de alianças realizadas pelo PCB como tática no processo de redemocratização do Brasil.
Assim como na Figura 1, a capa da edição nº 474, da Voz, também apresenta a operação de substituição na fotografia do candidato. Certamente, o recurso foi utilizado com a mesma intenção, uma vez que o jornal procurava, a todo momento, destacar Lula como personagem central da eleição.
Assim como nas outras edições analisadas até aqui, na segunda página do jornal, junto ao editorial, há um desenho (Figura 8). Nessa charge, diferentemente das anteriores, Lula foi representado em um tamanho maior, em relação aos desenhos anteriores, muito mais próximo de seu adversário e disputando de forma quase igualitária a bola de futebol, que faz alusão à eleição presidencial. Collor, por sua vez, foi representado com expressão facial tensa, como alguém que se preocupa com a atitude do adversário. No desenho Collor está parado, enquanto Lula prepara-se para chutar a bola.
A charge acompanha o editorial intitulado “Manobra esperta”, que denuncia a tentativa de Fernando Collor de desmoralizar seu adversário e a Frente Brasil Popular acusando-os de não ter governabilidade. Nesse sentido, compreendemos a necessidade do jornal de estampar na primeira página uma combinação de imagem e texto que traga credibilidade à Lula.
No suplemento Voz da Unidade Segundo Turno no centro da primeira página, aparece o retrato de Lula (Figura 9) sem autoria indicada. A fotografia está abaixo da manchete “Governo de alianças”. O candidato apresenta semblante apreensivo na foto. A imagem acompanha a reprodução de uma entrevista, na qual ele expõe suas propostas para ter um governo viável. Na entrevista, a Voz o questiona a respeito de alianças políticas, uso da nova Constituição, qual relação o político manteria com o Congresso caso eleito, políticas com relação às Forças Armadas, o problema da hiperinflação e as questões da reforma agrária, dívida externa e a reforma no sistema judiciário. Ou seja, através dessa interlocução, o jornal consegue expor ao leitor os pontos principais das propostas políticas do PT.
Possivelmente, a escolha dessa imagem possa refletir as dificuldades que seriam enfrentadas por Lula caso vencesse as eleições. Tal escolha se relaciona a falas do próprio político reproduzidas na transcrição da entrevista. Destaco um trecho em que ele expressa sua preocupação com relação ao cenário que encontraria caso fosse eleito:
A grandeza dos nossos objetivos impõe que tenhamos uma visão muito certeira das dificuldades que iremos enfrentar. Para sair da crise, é necessário suspender o pagamento dos juros da dívida e enfrentar os interesses dos grandes bancos internacionais. Para desprivatizar o Estado, controlar a inflação e garantir uma política salarial mais justa, teremos que nos opor a um sem número de grandes empresários que hoje apostam no arrocho, na especulação, nos favores escandalosos concedidos pelo governo. Só faremos a reforma agrária — mesmo nos termos previstos pela atual Constituição — se derrotarmos politicamente a violência e a capacidade de pressão da UDR dos grandes latifundiários (VOZ DA UNIDADE SEGUNDO TURNO, 7 de dezembro de 1989, p.1).
A inserção do retrato no suplemento e não nas primeiras páginas do jornal pode indicar que a Voz não gostaria de passar, de nenhuma forma, a imagem de um Lula fraco, mas sim, dialogar com o público de esquerda que já apoiava o PT naquele momento. Na entrevista, o candidato expõe: “nosso governo vai ter que conciliar uma grande ousadia com a sensibilidade para tomar medidas certas nos momentos necessários” (VOZ DA UNIDADE SEGUNDO TURNO, 7 de dezembro de 1989, p. 1). Assim, o rosto de Lula na fotografia demonstra que o político, embora seja proveniente de um contexto de trabalho braçal, tem a sensibilidade necessária para conciliar essas diferentes propostas. Ainda, o enfoque na política de alianças proposta por Lula mantém a narrativa construída pela Voz que o aproxima dos ideais do próprio PCB.
Na primeira página da edição nº 475 do periódico, publicada no dia 13 de dezembro de 1989, há a reprodução de uma manchete fotográfica de Lula usando terno e gravata (Figura 10)[6]. A foto é acompanhada da manchete “Lula presidente” em vermelho. Essa configuração emite uma clara mensagem ao leitor, sem abertura para outras interpretações. Lula era um político sério e naturalmente, na visão pecebista, deveria assumir a presidência do Brasil. Se por acaso apresentássemos a Figura 10 sem a sua data de publicação, seria possível que um leitor que desconhecesse o contexto político do final da década de 1980 acreditasse que a manchete estava, de fato, anunciando a vitória de Luiz Inácio.
Na charge da edição nº 475, ao lado do editorial “Segundo Turno”, Fernando Collor foi representado novamente como jogador de futebol, desta vez, sem a presença de Lula no desenho. O candidato é um atleta machucado sendo levado para fora do campo em uma maca. Considerando que cada uma das ilustrações analisadas até aqui compõem uma estória, é possível inferir que, após o crescimento de Lula e a sua “posse de bola”, Fernando Collor acabaria sendo derrotado. Dessa forma, a Voz da Unidade tentou minimizar o fato de que Collor apresentava uma ameaça concreta para Lula no segundo turno da eleição.
O apelo da imagem foi somado a trechos do editorial como: “A vitória eleitoral das forças democráticas e progressistas, através da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, agora é mais que possível: ela é muito provável. A campanha eleitoral, em sua última semana, revela exatamente isso” (VOZ DA UNIDADE, 13 de dezembro de 1989, p. 2).
Na capa do suplemento Voz da Unidade Segundo Turno da edição nº 475 do jornal a imagem de Lula — sem indicação de autoria — compõe outra manchete fotográfica (Figura 12). Junto à manchete escrita “O Brasil mostra a sua cara: é Lula”, a imagem sugere um maior impacto no leitor. Diferentemente das outras fotografias em que o candidato aparece de terno e gravata, para essa capa, o periódico optou por utilizar novamente uma fotografia do político discursando, com o rosto muito expressivo. Dessa forma, faz-se uma ligação com o momento de consolidação da democracia que o Brasil vive com a figura de Lula, um representante ativo do povo. A construção da capa sugere ao leitor que a cara do Brasil é a face de Lula. Não somente Luiz Inácio é o rosto do Brasil enquanto seu possível representante político, mas também pelo fato de que conhece a realidade vivida pela grande massa da população brasileira, diferentemente de Fernando Collor, que já vivia dentro da riqueza. Novamente podemos encontrar a produção de sentidos no periódico, que fazem o leitor sentir determinadas sensações ou emoções. Nesta edição, a Voz se direciona para a propaganda final antes do evento da votação; logo, com os ânimos exaltados no país diante da escolha do novo presidente, o jornal não poderia lançar imagens pouco chamativas. A escolha de imagem e texto escrito, bem como da diagramação das primeiras páginas, tanto da edição do jornal quanto do suplemento, representavam uma última tentativa de divulgar o rosto e nome do político petista.
A disposição de elementos na primeira página da Voz do dia 21 de dezembro de 1989, edição nº 476, demonstra a forma como o jornal construiu seu discurso diante da derrota (Figura 13). Essa é a única edição, dentre as analisadas neste trabalho, em que aparece a reprodução de uma fotografia de Collor. O jornal apenas reproduziu sua imagem a partir do momento em que o resultado da eleição já estava dado. Embora a temática a ser noticiada naquele dia fosse a vitória de Fernando Collor de Mello, o jornal apresentou a sua imagem em tamanho muito pequeno, com uma breve manchete em um tom de vermelho apagado. O elemento principal na página é a manchete “Números da eleição”, que não menciona diretamente nenhum dos dois candidatos. O anúncio da vitória de Collor divide espaço com outras duas notícias de conotação negativa, o “Massacre na Romênia” e “EUA invadem Panamá”.
Ao lado da imagem de Collor, há também a fotografia de Lula com expressão de tensão no rosto, como uma representação do sentimento de preocupação que ocorreria nos anos seguintes. Essa construção é reafirmada pelo texto que está ao lado de sua foto informando que Lula viria a ser oposição ao governo Collor. As duas fotografias foram manipuladas em uma substituição de seu fundo original, gerando destaque para as figuras dos dois oponentes políticos.
Na segunda página do jornal, ao lado do editorial “A eleição e o novo bloco”, há uma charge assinada por Madá, na qual Fernando Collor é representado de forma grotesca como um bebê, de fralda e chupeta, porém, com corpo de adulto (Figura 14). No desenho, o novo presidente é alertado para não estragar seu “novo brinquedo”, o Brasil. Seu antigo brinquedo, Alagoas, já se encontra destruído no fundo da imagem. Fernando Collor parece não entender o que lhe foi dito, sua expressão facial e sua fala demonstram seu despreparo.
O lugar ocupado por Collor na Voz da Unidade foi o espaço do humor. Embora Lula também estivesse representado em charges, foi Collor o candidato da oposição ridicularizado como um mau jogador de futebol e como um bebê grotesco. Para Minois (2003, p. 391), o humor no século XX é uma maneira de lidar com o trauma, de ironizar aquilo que incomoda na vida real. O fator principal da charge é o humor, e no caso específico da ilustração do presidente eleito em 1989 na página do editorial do jornal, um humor ácido, aquele que Minois chamaria de um riso de desespero. Collor como um bebê não foi simplesmente engraçado pela junção do corpo de um homem e de uma criança, mas também pela sua atitude destrutiva. A tragédia foi anunciada através do escárnio.
Conclusão
A partir da análise das fontes, concluo que o periódico Voz da Unidade utilizou diferentes estratégias para representar de forma positiva o candidato que apoiava e para representar de forma negativa o candidato da oposição. Nas edições aqui analisadas, houve a reprodução de fotografias de Lula em todas as primeiras páginas do jornal. Levando em consideração, supostamente, que a capa do jornal ficasse exposta e, portanto, visível nas bancas de revistas, mesmo para aqueles que não o comprassem, essa foi uma forma de divulgar a imagem e o nome do candidato do PT. Seguindo a mesma lógica, o jornal não reproduziu fotografias de Collor — com exceção da edição nº 476, que anuncia a sua vitória —, a fim de não fazer nenhum tipo de propaganda, mesmo que de maneira indireta, do adversário.
Identificamos que existiram três formas de representação de Lula. A primeira delas esteve de acordo com a própria imagem que o político procurava passar em diversos momentos de sua campanha, ou seja, a imagem do representante do povo. Nestas imagens, Lula aparece próximo das pessoas para as quais discursa, utilizando vestes informais e, geralmente, com expressão assertiva no rosto. Por outro lado, houve também a construção de sua imagem enquanto um candidato que estava inserido no jogo institucional e que tinha propostas sólidas para seu governo. Nesse sentido, foram utilizadas também imagens nas quais ele vestia terno e gravata e mostrava um semblante sereno. Tais fotografias construíram um sentido alinhado às propostas do PCB no período de transição. A narrativa contada pelo conjunto de desenhos em que ele aparece como jogador de futebol, como já mencionei, mostra-o como um atleta capaz de combater o adversário, ou seja, apresenta uma analogia de fácil compreensão para o leitor, uma vez que usa de um esporte central na cultura brasileira.
As representações, ao construírem uma organização do real através de imagens mentais transpostas em discurso ou em outras manifestações comportamentais dos indivíduos que vivem em sociedade, estão incluídas no real, ou mesmo dadas como se fossem o próprio real. Elas se baseiam na observação empírica das trocas sociais e fabricam um discurso de justificativa dessas trocas, produzindo-se um sistema de valores que se erige em norma de referência. Assim, é elaborada uma certa categorização social do real, a qual revela não só a relação de ‘desejabilidade’ que o grupo entretém com sua experiência do cotidiano, como também o tipo de comentário de inteligibilidade do real que o caracteriza — uma espécie de metadiscurso revelador de seu posicionamento. Em resumo, as representações apontam para um desejo social, produzem normas e revelam sistemas de valores (CHARAUDEAU, 2019, p. 47).
Fernando Collor, por outro lado, embora aparecesse nas páginas da Voz da Unidade menos vezes, também teve três formas distintas de representação, sendo a mais frequente a de jogador de futebol, que acaba sendo derrotado por Lula e sai machucado do campo.O candidato foi representado em trajes formais, como um político tradicional, na fotografia na primeira página da edição nº 476. Enfim, na charge de Madá, como mencionei, Collor foi representado enquanto um bebê que iria “estragar” o Brasil. Lembramos que outros veículos de imprensa do mesmo período pertencentes à grande mídia brasileira mostravam o candidato como uma pessoa jovial, que poderia combater a velha política. Em especial, a revista Veja se engajou na propaganda política favorável à Collor. A preparação e produção da imagem pública do candidato vencedor em 1989 foi bastante planejada, gerando uma ambiguidade, uma vez que essa mesma construção certamente causou estranhamento e desconfiança em parte do eleitorado.
Certos políticos, tanto homens quanto mulheres, parecem mais grotescos que suas marionetes. Para uns, é dom natural; outros chegam a isso à custa de trabalho e graças às opiniões esclarecidas de seus conselheiros em comunicação (MINOIS, 2003, p. 422).
Através das estratégias discursivas empregadas pelo periódico também concluo que o PCB e o seu órgão oficial de imprensa buscaram aproximar a figura de Lula aos ideais de sua própria formação ideológica. Percebo que a previsão que o jornal fazia para a eleição, próxima à votação do segundo turno, era de que Lula tinha grandes chances de sair vitorioso. No entanto, ressalto que, mesmo que esse não fosse um pensamento genuíno dos membros do partido, certamente expor essa previsão como um fato poderia justamente auxiliar na conquista de mais votos.
Para o PCB daqueles anos, era de grande importância o engajamento na luta institucionalizada, mesmo que através do apoio ao candidato do PT que surgiu disputando a influência política na esquerda brasileira e que, de fato, passou a aglutinar diversos grupos que anteriormente poderiam estar atrelados ao “Partidão”.
Diante do exposto, reforço que a compreensão da construção de uma linguagem jornalística própria da Voz da Unidade, algo que extrapola as fotografias e desenhos publicados, é essencial para a investigação da produção de sentidos para diferentes eventos, a partir das disputas ideológicas que ocorriam dentro do PCB na década de 1980. Neste artigo, analisei uma pequena amostra desse processo. No entanto, o periódico em questão possibilita ao leitor a problematização de diversas temáticas referentes ao mesmo momento, uma vez que nas páginas da Voz da Unidade, existem debates referentes à luta sindical e camponesa, às questões de gênero, raça e cultura, além de outros tópicos importantes para o PCB e para os leitores do jornal. Da mesma forma como ocorreu em outros periódicos, a partir da construção de uma iconografia própria, a Voz da Unidade contou a sua própria versão da história.
Referências bibliográficas
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Notas
Autor notes
Ligação alternative
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