Resenha
SEXUALIDADES INSUBMISSAS: A SUBVERSÃO DA NORMA E O FIM DESTE MUNDO
Renata Lewandowski Montagnoli i renata.lemon@hotmail.com
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil
Recepção: 12 Janeiro 2024
Aprovação: 16 Fevereiro 2024
MAIA Cláudia, RAMOS Gustavo. Sexualidades Insubmissas: contribuições aos estudos feministas e queer.. 2022. Uberlândia. O Sexo da Palavra. 285pp. |
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O livro Sexualidades Insubmissas: contribuições aos estudos feministas e queer é uma produção que surgiu de encontros ocorridos em 2016, no Seminário Gênero e Subjetividade do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). Os debates desse seminário envolviam estudantes que com “experiências estranhas à heteronormatividade ou não capturadas completamente por ela”. O livro questiona o enquadramento binário das referências de sexualidade socialmente aceitas, através da insubmissão das “representações instituídas”.
A obra foi organizada por Cláudia Maia, pós-doutora em História, professora do Departamento de História da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), pesquisadora reconhecida por diversas pesquisas na área de gênero; e por, Gustavo Ramos que é mestre em História Social e mestrando em Estudos Literários pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), professor da Rede Pública de Ensino em Minas Gerais e editor-chefe da revista digital Caderno insubmisso. A editoração ficou a cargo da O Sexo da Palavra, que atua na área de gênero e sexualidade desde 2016, e tem como proposta, trabalhar com produção sob medida, diferenciando-se das grandes editoras que hoje estão no mercado.
A obra está situada num contexto de pesquisas sobre sexualidades dissidentes que, desde meados da década de 10, deste século, vem ganhando força e publicização, tanto com livros, coletâneas, assim como, com teses e dissertações que abordam a temática. Essas pesquisas ganham força ao mesmo tempo que movimentos políticos conservadores também se fortalecem e julgam, perseguem e demonizam pessoas e sexualidades que fogem da cisheteronormatividade. Algumas/aulguns autoras/es também trazem esse tensionamento, a discussão dessa binaridade do gênero, das múltiplas possibilidades da sexualidade, como: Paul B. Preciado (2014), Judith Butler (2003), que foram percursoras/es dessa problematização e que inspiram outras pesquisas/obras como as de Marta Rovai (2021), Cláudia Maia (2023), Elias Veras (2020), assim como as obras organizadas por Elias Veras; Joana Maria Pedro; Benito Schmidt (2023), Benito Schmidt e Rodrigo Weimer (2022), entre outras.
A coletânea temática é composta por onze capítulos que percorrem as diversas “sexualidades insubmissas”, alguns textos utilizam da história oral como abordagem metodológica, outros, realizam uma pesquisa qualitativa, documental e/ou cinematográfica. A leitura amplia o entendimento sobre os estudos que envolvem a temática gênero, feminismos e a teoria queer, tanto de historiadoras/es, como do público em geral.
No primeiro capítulo, Drag king mande in Brazil, somos levadas/os por Patrícia Lessa a problematizar a performance drag king como um “ato performativo em que os gêneros são embaralhados através da arte e de performances educacionais” (p. 28). A autora faz uma retrospectiva do surgimento da performance drag king, nos anos de 1990 em bares e boates voltadas ao público lésbico.
Lessa descreve sua própria experiência performática através da construção de seus três personagens: Pablito, Ricardão do Pandeiro e Capitão Barroso. Para a autora, o caráter performativo representa uma imitação, uma “reapropriação criativa de identidades”, isso permite questionar o local fixo dos papéis de gênero.
Percorrendo as análises sobre as outras existências insubmissas e subversivas, Fábio Figueiredo Camargo analisa a cinematografia brasileira no capítulo Vida de Rainha: flagrantes de corpos que importam, escrevendo sobre a “encenação” das drag queens a partir do documentário Vida de Rainha. Assim como Patrícia Lessa, Fábio Camargo escreve sobre a performance, usando o conceito de encenação, que seria um modo de representação de sujeitos sobre o olhar da plateia, onde homens se “montam” como mulheres.
O documentário aborda o trabalho de quatro drag queens/transformistas em boates populares do subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. A montagem das personagens busca produzir um corpo diferente, um corpo que a partir das “tecnologias de gênero” (Teresa de Lauretis, 2019), que insistem em existir, mesmo que de forma contingente.
Abordando o tema das mulheridades e feminilidades, a professora Marta Gouveia de Oliveira Rovai - reconhecida pesquisadora na área da História Oral -, no seu capítulo Feminilidades e masculinidades trans: narrativas de mulheres e homens alfenenses sobre dispositivos de poder e subversão subjetivas, discute a tensão entre práticas essencialistas e biologizantes quanto a existência e subjetividade de sujeitas e sujeitos desviantes da norma. A autora problematiza a subversão da norma binária através de entrevistas com integrantes do Movimento Gay de Alfenas (2018 e 2019), e também, através da pesquisa Pelo direito de existir: histórias de vida de mulheres transexuais mineiras vinculada à Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).
Algumas das pessoas participantes do movimento realizaram a transição de gênero e em decorrência, sentiram a falta de representatividade do grupo com relação às suas novas identidades. Cada uma das narrativas evidencia como é a vivência a partir da masculinidade e da feminilidade trans, demonstrando os desconfortos, as angústias e as dificuldades encontradas por essas pessoas no seu processo de afirmação social, como narra a entrevistada Wall Alves: “transformam nosso corpo em fetiche sexual; assim ele pode existir” (p. 68), apenas como um fetiche ele é validado.
Ainda narrando histórias de pessoas trans, Michele Pires Lima descreve as memórias e vivências de mulheres trans que buscaram a transformação de seus corpos na cidade de Manaus/AM. No capítulo: Eu sou uma trans e eu vou me vestir de mulher: memórias, gênero e corporeidade Trans em Manaus/AM, a autora constata que desde a década de 1980, os meios de comunicação já abordaram a temática das modificações corporais realizadas por pessoas transexuais, num momento histórico em que apresentavam-se ícones televisivos como a travesti Rogéria e a modelo transexual Roberta Close.
Segundo Michele Lima, “as transições de gênero são múltiplas e com dinâmicas diferenciadas” (p. 98), para abordar essas dinâmicas a autora disserta a trajetória de três mulheres trans, que relatam suas experiências atreladas a travestilidade recreativa, ao processo de hormonização e do uso do silicone industrial, e o surgimento da figura das “bombadeiras”.
A sexualidade e o corpo feminino como espaços de interesse, disputa e domínio estão no centro das discussões sobre o poder do patriarcado sobre o feminino e as feminilidades. Para abordar esse tema a partir da produção audiovisual, Fabiana Oliveira Leite e Cláudia Maia, escreveram o capítulo Dos dispositivos de controle da sexualidade das mulheres em Toda Nudez Será Castigada (1973).
As autoras analisaram o filme Toda Nudez Será Castigada, dirigido por Arnaldo Jabor e lançado em 1973, para discutir as tecnologias e os dispositivos de controle da sexualidade, a representação das mulheres, e o imaginário acerca da virgindade e prostituição feminina. O texto ainda ocupa-se da fabricação dos corpos, do casamento, da figura da “solteirona” utilizando Michel Foucault para discutir as subjetividades que envolvem esses conceitos.
Os corpos, suas representações, experiências e vivências dissidentes apresentam-se como uma ameaça para a cisheteronormativadade, seja pelo medo da liberdade sexual feminina, ou pela visibilidade da homossexualidade/transexualidade. Gayle Rubin (2018), explica que em alguns momentos os dispositivos de controle e poder, se voltam contra aquilo ou aquelas/es que representam um mal para sociedade, derivando assim o conceito de “pânico moral”. No final da década de 1980, e começo dos anos de 1990, o mundo viu explodir a epidemia de HIV/AIDS, levando muitas pessoas à morte. Nessa época, a doença foi apelidada de “câncer gay”, pois acreditava-se que acometia apenas homossexuais e que seria uma espécie de castigo devido as suas práticas sexuais. Nesse cenário, a cantora pop Madonna, através de sua arte e seu ativismo, traz à tona a discussão sobre prevenção, respeito, cuidado e preconceito contra pessoas com HIV/AIDS. Esse é o tema que Gustavo Ramos trata no capítulo: SEX, de Madonna: uma pequena história da epidemia de aids.
O autor expõe a importância do debate promovido pela diva pop sobre o tema, que era tão envolto em preconceitos, medos e desinformação. Madonna foi a voz que fez ecoar a frase: “Sexo seguro salva vidas. Espalhe essa ideia”.
Pesquisar gênero é subverter, pois a todo tempo pesquisadoras/es são atacadas/os, desacreditadas/os por aquilo que pesquisam, escrevem, lutam e acreditam. Esses ataques não acontecem de igual maneira para todas as pessoas que discutem gênero, pois nossas vivências são diversas e nossas identificações, também. Discutindo o artivismo de gênero, Paul Jardim Martins Afonso apresenta os conceitos de terrorista de gênero e ética terrorista por meio do texto: Terrorismo de gênero: um plano de composição potente.
Paul Afonso utiliza da arte e atuação política da artivista Linn da Quebrada e dos conceitos desenvolvidos por Peter Pál Pelbart (2011), para explicar o terrorismo de gênero como “margem de manobra potente”. A arte travesti de Linn da Quebrada destaca as subjetividades em guerra e discute a necropolítica, através de Mbembe (2018), que define que algumas existências podem viver e outras, como as existências travestis, devem morrer. O corpo se apresenta como uma arma, assim como Madonna usou sua voz e sua arte, Linn usa do seu corpo como um potente, “lócus de territorialidade das ações táticas de enfrentamento”.
Continuando nas análise sobre a abjetivação e ódio ao “outro”, ao “diferente” o texto O ódio pornográfico do cidadão de bem, de Rafael Baioni do Nascimento, aborda construção e propagação das fake news e da pornografia. O autor utiliza o conceito de regime de farmacopornografia, que seria “o padrão de relações de poder correspondente ao capitalismo especulativo" (p. 196), além de alicerçar-se na produção de Michel Foucault (1988; 2014) e Paul B. Preciado (2017; 2018), para discutir o ódio pornográfico.
Rafael Nascimento faz uma análise histórica da criação da figura do “cidadão de bem”, figura esta que, foi tão bem explorada pelos conservadores e pela extrema-direita nos últimos anos no nosso país. Além de abordar os interesses e disputas capitalistas que fazem a transição do súdito para o cidadão, e quanto esse “cidadão” moderno é manipulado pelo poder especulativo do capital, “antes mesmo de uma fake news vender um político para você, alguém pagou para que essa fake news fosse direcionada especificamente a você” (p. 202). Pois, o capitalismo “gosta de expansão e de novos caminhos”.
Assim como o capitalismo se expande por novos caminhos, a igreja católica também expandiu seu poder sobre os corpos, vidas, sexualidades e desejos das pessoas no passado (persistindo ainda como uma prática do presente). Fato demonstrado no texto de Cássio Bruno de Araújo Rocha intitulado Sodomia imperfeita e os limites da heterossexualidade na história: prazeres e culpas anais na Visitação do Santo Ofício ao Grão-Pará (1763-4).
As práticas sexuais estiveram ao longo da história sobre vigilância e julgamento, seja pela religião cristã, pela medicina ou pelo poder político. Práticas que fazem parte da subjetividade das/os sujeitas/os são categorizadas, normatizadas e fiscalizadas em nome da moral, da saúde e da continuidade humana, como se as práticas sexuais fossem apenas um dispositivo de perpetuação da espécie, um mal necessário, não uma prática de desejo e prazer.
Analisando documentos históricos do século XVIII, e fundamentando-se em obras de autores como Ronaldo Vainfas (1989), Cássio Rocha discute a sujeição de três pessoas ao julgamento do Santo Ofício devido a prática sexual “desviante” dos mesmos, uma vez que de acordo com os inquisidores, o sexo anal seria um pecado aos olhos de Deus, passível de punição.
Se a igreja persegue e condena os “desviantes”, a revolução persegue aquelas/es que subvertem as práticas, os costumes e a escrita. Que o diga às obras de Reinaldo Arenas, escritor homossexual cubano que, foi perseguido pelo governo instituído por Che Guevara e Fidel Castro pois, para os líderes da Revolução Cubana, Arenas não representava os verdadeiros valores de um revolucionário caribenho. Essa história é narrada no texto Literatura, sexualidade e subversão da identidade nacional em Cuba de Jorge Luiz Ribas.
Ribas inicia a escrita explicando o conceito de identidade que forma a nação, a partir do compartilhamento de uma identidade comum, como escreve Stuart Hall (2000; 2014). O estado moderno disciplina os corpos perigosos e reprime a “a-normalidade”. A literatura e a escrita têm um papel fundamental nesse processo de construção da nação, pois “disseminam símbolos de coesão e germinam a imaginação coletiva comum”(p. 236). Com sua escrita “marginal”, o poeta Reinaldo Arenas não se encaixava no perfil de pureza nacional que os revolucionários cubanos almejavam naquele período, pós-tomada de poder.
Se para a revolução os homossexuais não eram bem vindos, para o capitalismo, o dinheiro desse grupo, é muito bem vindo. No começo dos anos 2000, foi lançada a revista G Magazine, voltada para o público gay. Os estudiosos Fábio Ronaldo da Silva e Paulo Souto Maior pesquisaram quais eram os modelos de masculinidades representados nas capas da revista e discorrem sobre o tema no capítulo: Corpo, para que te quero? Modelos de masculinidades em capas da revista G Magazine.
Foram analisadas as capas da revista, a vendagem e as características corporais e da aparência daqueles que posaram para a foto de capa da G Magazine, a partir dessas análises, foi possível observar qual o ideal de masculinidade apresentado pela revista. A pesquisa de Silva Souto Maior permitiu observar que, com o passar do tempo, os modelos da revista foram sendo substituídos, saíram os homens com mais pelos, mais velhos, que foram dando espaço para modelos mais musculosos, que passavam a impressão de mais saudáveis, mais jovens e depilados. Essas características corporais dos modelos, faziam a vendagem aumentar, diminuindo apenas, quando o modelo era negro, momento em que a redação da revista recebia cartas com reclamações sobre, numa clara demonstração de um padrão de beleza e de masculinidade branco e racista.
A elaboração de uma coletânea temática é muito útil para a divulgação de pesquisas acadêmicas, principalmente para pesquisas como as apresentadas nesta obra, que tratam de sexualidades dissidentes. A organização de uma coletânea, que apresenta textos resultantes de um evento científico, é uma tarefa difícil pois, sistematizar trabalhos que não tratam da mesma temporalidade, e não apresentam a mesma qualidade de escrita, é complexo e exige competência, como a apresentada por Cláudia Maia e Gustavo Ramos. Mas, uma leitura atenta do livro Sexualidades Insubmissas: contribuições aos estudos feministas e queer não permite a leitora/ao leitor ficar indiferente diante do que é explorado a cada página, possibilitando um novo encontro a cada capítulo, como escreveu Marta Rovai (p. 64), “que as diferenças não impeçam, mas engrandeçam a arte do encontro”. A obra é um encontro com a insubmissão, a subversão, a interseccionalidade e com múltiplas existências e experiências de sexualidades dissidentes.
Referências bibliográficas
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
MAIA, Cláudia. A invenção da solteirona: conjugalidade moderna e terror moral. Leiria (Portugual): Proprietas, 2023.
PRECIADO, Paul B.. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. Tradução Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo: n-1 edições, 2014.
ROVAI, Marta Gouveia de Oliveira (Org.). Escutas sensíveis, vozes potentes: diálogos com mulheres que nos transformam. Teresina: Cancioneiro, 2021.
RUBIN, Gayle. Pensando o sexo. São Paulo: Editora Ubu, 2018.
VERAS, Elias Ferreira. Travestis: Carne, Tinta e Papel. 2. ed. Curitiba: Appris, 2020.
VERAS, Elias Ferreira; PEDRO, Joana Maria; SCHMIDT, Benito Bisso (Orgs.). (Re)Existências LGBTQIA+ e feminismo na ditadura civil-militar e na redemocratização do Brasil. Maceió: Edufal, 2023. Disponível em: https://www.edufal.com.br/wp-content/uploads/woocommerce_uploads/2023/01/Reexistencias-mcsetm.pdf. Acesso em: 12 jan. 2023.
SCHMIDT, Benito Bisso; WEIMER, Rodrigo. Histórias lesbitransviadas do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Taverna, 2022.
Autor notes
Ligação alternative
https://www.periodicos.unimontes.br/index.php/caminhosdahistoria/article/view/8180/7801 (pdf)